Escrito por Gonçalo Carvalho Miguel·5 min de leitura
Co-living: será uma moda, ou vem para ficar?
Moda ou realidade estrutural?
O conceito de co-living deixou de ser uma moda passageira, para se afirmar como uma realidade crescente no mercado imobiliário global. Estima-se que a procura por habitação flexível e partilhada cresça mais de 20% ao ano, nos principais centros urbanos. A pandemia reforçou ainda mais a necessidade de espaços adaptáveis, que integrem uma componente comunitária e que respondam às novas formas de trabalhar e viver. Grandes fundos internacionais já incluem o co-living e outros modelos híbridos nos seus portfólios, demonstrando o potencial de rentabilidade deste segmento.
Em Portugal, o mercado de co-living ainda se encontra numa fase incipiente, mas o potencial é evidente em cidades como Lisboa e Porto, que combinam turismo, um grande número de estudantes internacionais e uma forte atração de trabalhadores qualificados. O co-living não é apenas uma tendência, mas assume-se como uma resposta concreta às mudanças demográficas, culturais e sociais das nossas cidades.
Quem procura co-living e porquê
Os perfis de residentes são diversos, mas todos partilham necessidades comuns, nomeadamente: flexibilidade, previsibilidade de custos e vidas sociais ativas. Os jovens profissionais procuram alternativas ao arrendamento tradicional, cada vez mais caro e limitado. Em Lisboa, por exemplo, a renda média de um T2 ultrapassa já os 1.500€/mês em 2025, segundo o Idealista, enquanto no Porto ronda os 1.100–1.200€/mês. Perante salários médios que se situam em torno de 1.500€ brutos/mês, é cada vez mais difícil para um jovem suportar sozinho um arrendamento.
Neste contexto, o co-living surge como uma solução realista e acessível. Nómadas digitais e trabalhadores deslocados valorizam contratos curtos, com serviços incluídos e integração imediata. Estudantes internacionais e recém-licenciados, por sua vez, encontram no co-living uma solução intermédia entre residências de estudantes e arrendamento tradicional. Adultos em transição de vida, como recém-divorciados ou pessoas em mudança de cidade, procuram soluções temporárias com conforto e segurança. O perfil dos residentes em projetos de co-living é maioritariamente jovem. Em Lisboa, cerca de 45% dos residentes têm menos de 35 anos, incluindo jovens profissionais, estudantes internacionais e nómadas digitais.
A economia do modelo: yields, prémio e ocupação
Do ponto de vista económico, o co-living apresenta um potencial de rentabilidade superior ao arrendamento residencial tradicional. Enquanto as yields médias do arrendamento tradicional em Lisboa rondam os 3–4%, os projetos de co-living em mercados maduros conseguem atingir entre 6–8%. Esse diferencial explica-se não só pela ocupação média elevada, mas também pela possibilidade de cobrar um prémio de 15–20% face ao arrendamento convencional, compensado pela conveniência e pelos serviços incluídos.
Os obstáculos: escala, gestão e uma regulação cinzenta
A eficiência do modelo baseia-se em fatores como a capacidade de manter taxas de ocupação elevadas, a rotatividade controlada que permite ajustar preços ao mercado e a exploração otimizada dos espaços comuns. No entanto, não podemos descurar os desafios que se enfrentam: custos operacionais mais elevados, necessidade de escala mínima (80–150 unidades para viabilidade financeira) requerida por investidores institucionais e complexidade de gestão, que exige profissionalização e know-how semelhante ao da hotelaria. A regulação e licenciamento em Portugal continuam pouco claros, levando os projetos a navegar numa área cinzenta, entre Serviços, Equipamentos e Habitação. A aceitação social nem sempre é imediata, especialmente em bairros residenciais, onde pode existir resistência devido a perceções de elitismo ou impacto na gentrificação. Os custos de entrada são elevados, pois os ativos devem estar bem localizados e atingir uma dimensão mínima para serem viáveis. Apesar destes obstáculos, onde são superados, os projetos de co-living mostram grande viabilidade e atraem investidores institucionais.
As taxas de ocupação nestes projetos demonstram a solidez do modelo: em mercados onde o Co-living já se encontra numa fase mais madura, como Londres, ultrapassam os 95%. Em Berlim rondam os 90% e em Amesterdão aproximam-se dos 88%, refletindo uma procura consistente e sustentável. Tanto Lisboa como o Porto apresentam um forte potencial de escalabilidade devido à procura internacional e à concentração de estudantes e profissionais estrangeiros. Lisboa, por exemplo, encontra-se entre as 5 melhores opções do mundo para nómadas digitais.
O impacto urbano e social do co-living pode ser muito positivo, contribuindo para atenuar a crise de habitação acessível, promovendo a vida comunitária, reduzindo o isolamento urbano e incentivando a utilização eficiente de espaços comuns. Contudo, se for posicionado como produto premium, corre o risco de se tornar elitista e acelerar a gentrificação em áreas já pressionadas pelo turismo e pelo arrendamento de curta duração. O verdadeiro potencial social do co-living depende, portanto, da forma como é implementado, podendo ser uma solução inclusiva e flexível ou apenas mais um segmento de luxo urbano.
Só no centro, ou também na periferia?
Mas, será que o co-living só faz sentido no centro de Lisboa e do Porto, ou pode expandir-se para periferias bem conectadas?
Zonas periféricas bem conectadas oferecem custos de aquisição e operação mais baixos, proximidade a hubs de emprego e boas ligações de transportes. Aqui, projetos de dimensão média, por exemplo, 50 a 70 unidades, podem não atrair grandes fundos institucionais, mas podem fazer sentido para investidores privados, family offices ou operadores especializados que queiram diversificar os seus portfólios com ativos alternativos.
O futuro aponta para a consolidação do co-living como parte do portfólio habitacional urbano, complementando o arrendamento tradicional, as residências estudantis e a habitação sénior. A digitalização, a mobilidade laboral global e a atenção de operadores internacionais a Portugal reforçam esta tendência.
Em resumo, o co-living estabelece-se como uma alternativa relevante para segmentos jovens, internacionais e altamente móveis, oferecendo flexibilidade e soluções habitacionais adaptadas aos desafios urbanos do século XXI.
Até breve,
Gonçalo Carvalho Miguel
Perguntas frequentes
O co-living é rentável face ao arrendamento tradicional?
Segundo o artigo, sim. As yields médias do arrendamento tradicional em Lisboa rondam os 3-4%, enquanto os projetos de co-living em mercados maduros atingem entre 6-8%. O diferencial explica-se pela ocupação média elevada e pela possibilidade de cobrar um prémio de 15-20% face ao arrendamento convencional, compensado pela conveniência e pelos serviços incluídos.
Que dimensão mínima precisa um projeto de co-living?
Entre 80 e 150 unidades para viabilidade financeira junto de investidores institucionais. O artigo nota, contudo, que em zonas periféricas bem conectadas projetos de dimensão média, por exemplo 50 a 70 unidades, podem não atrair grandes fundos mas fazer sentido para investidores privados, family offices ou operadores especializados que queiram diversificar com ativos alternativos.
Que taxas de ocupação atingem os projetos de co-living?
Em mercados maduros, as taxas ultrapassam os 95% em Londres, rondam os 90% em Berlim e aproximam-se dos 88% em Amesterdão, refletindo procura consistente e sustentável. Lisboa e Porto apresentam forte potencial de escalabilidade devido à procura internacional e à concentração de estudantes e profissionais estrangeiros, Lisboa está entre as cinco melhores opções do mundo para nómadas digitais.
Quem vive em co-living?
Perfis diversos com necessidades comuns de flexibilidade, previsibilidade de custos e vida social ativa: jovens profissionais à procura de alternativas ao arrendamento tradicional, nómadas digitais e trabalhadores deslocados que valorizam contratos curtos com serviços incluídos, estudantes internacionais e recém-licenciados a meio caminho entre residência de estudantes e arrendamento, e adultos em transição de vida como recém-divorciados ou pessoas em mudança de cidade. Em Lisboa, cerca de 45% dos residentes têm menos de 35 anos.
Que obstáculos enfrenta o co-living em Portugal?
Custos operacionais mais elevados, necessidade de escala mínima, e complexidade de gestão que exige profissionalização e know-how semelhante ao da hotelaria. A regulação e o licenciamento continuam pouco claros, levando os projetos a navegar numa área cinzenta entre Serviços, Equipamentos e Habitação. Há ainda aceitação social nem sempre imediata em bairros residenciais, por perceções de elitismo ou de impacto na gentrificação, e custos de entrada elevados por os ativos terem de estar bem localizados e atingir dimensão mínima.
O co-living ajuda ou agrava a crise de habitação?
O artigo não dá uma resposta única: diz que depende da forma como é implementado. Pode atenuar a crise de habitação acessível, promover a vida comunitária, reduzir o isolamento urbano e incentivar o uso eficiente de espaços comuns. Mas, se for posicionado como produto premium, corre o risco de se tornar elitista e de acelerar a gentrificação em áreas já pressionadas pelo turismo e pelo arrendamento de curta duração, sendo então "apenas mais um segmento de luxo urbano".
Quem assina o artigo?
Gonçalo Carvalho Miguel, da Laplace Real Estate Intelligence.
Um abraço e até breve
Laplace




