Escrito por André Casaca·Real Estate Manager·6 min de leitura
Tendo em conta a proximidade ao Parque das Nações, Sacavém tem vindo a afirmar-se como uma zona habitacional em valorização. Apesar de não ser considerada uma zona prime, a localização estratégica face a Lisboa, as boas acessibilidades e as perspetivas de melhoria das infraestruturas e da organização urbana têm sustentado uma evolução consistente do mercado.
Porque é que o arrendamento não se constrói em Portugal
Portugal continua, no entanto, a ser um país de cultura de posse: cerca de 70% da população procura adquirir casa, o que limita o desenvolvimento do mercado de arrendamento. A verdade é que não existem alternativas “razoáveis” à compra, o que, aliado às dinâmicas atuais de vida e às transformações demográficas, abre uma oportunidade clara para edifícios pensados especificamente para arrendamento.
Contudo, o enquadramento urbanístico continua a dificultar a viabilidade de projetos habitacionais tradicionais com este propósito, sobretudo porque:
- É mais rentável desenvolver para venda especulativa;
- Condicionantes urbanísticas, como áreas mínimas por tipologia e exigência de estacionamento, comprometem a viabilidade económica.
É neste contexto que o Co-Living surge como uma alternativa realista e alinhada com as necessidades do mercado. Embora o conceito ainda seja pouco maduro em Portugal, o interesse dos investidores tem-se concentrado em localizações prime, como Lisboa e Porto.
A questão é: haverá espaço para desenvolver este produto em zonas secundárias? A nossa convicção é que sim. Do lado da procura, não restam dúvidas.
1. Localização Secundária: Sacavém
A centralidade de Sacavém, no concelho de Loures, reforça o seu potencial e a procura crescente no mercado de arrendamento.
📍 Localização e acessibilidades
- Proximidade a Lisboa, com acessos rápidos pela A1 e A30;
- Boa rede de transportes públicos;
- Oferta de comércio e serviços no centro urbano.
🚆 Conectividade ferroviária com Lisboa:
- Sacavém → Oriente: ~ 5 minutos
- Sacavém → Braço de Prata: ~ 8 minutos
- Sacavém → Santa Apolónia: ~ 14 minutos
📊 Demografia, rendimentos e habitação
Segundo os Censos 2021, o Município de Loures tinha 201.590 habitantes, com uma média de 2,47 pessoas por família. Destaca-se:
- 59,1% das famílias com 1 a 2 pessoas (perfil ajustado ao Co-Living);
- 61,1% das habitações ocupadas por proprietários (abaixo da média nacional de 70%);
- 31,3% das famílias em arrendamento (10% acima da média nacional).
Entre 2011 e 2021, Loures perdeu 1,7% da população. Contudo, entre 2019 e 2023, a população estrangeira residente cresceu +64,2%, impulsionando a procura de arrendamento e a subida das rendas.
Em termos de encargos, 43,5% dos proprietários têm crédito associado, com prestações na maioria dos casos até 650€/mês.
💡 Procura – dados Idealista
- Tipologias mais procuradas: T2 (compra e arrendamento), seguidos por T1.
- Dimensão preferida: 61–75 m².
- Intervalos de preços mais relevantes.
📈 Segundo o SIR, a renda média contratada para um T1 (~43 m²) situa-se nos 850€/mês.
2. O Projeto Imobiliário
Tendo em conta a localização do ativo, o enquadramento urbanístico associado e as dinâmicas atuais do mercado, foi equacionado o desenvolvimento de um projeto em formato Co-Living, direcionado ao arrendamento habitacional, em alternativa a um modelo residencial tradicional.
Este conceito habitacional prevê a criação de 54 unidades de alojamento, com cerca de 30 m² cada, que partilham uma rede de espaços comuns com afetação a serviços, nomeadamente:
- Zonas de trabalho e estudo;
- Áreas de refeição;
- Espaços de lazer e convívio;
- Ginásio.
A proposta procura responder à procura crescente por soluções habitacionais mais flexíveis e adaptadas aos novos estilos de vida, oferecendo uma alternativa viável e competitiva ao mercado residencial tradicional.
“Através da redução das áreas de circulação ao mínimo indispensável e de um estudo cuidado do mobiliário fixo, é possível encontrar soluções arquitectónicas eficazes, mesmo em áreas reduzidas. Para tal, é necessário pensar os espaços de forma a serem o mais versáteis possível. Como demonstramos aqui, é possível, em menos de 30 m², integrar zonas de descanso, lazer, refeições e trabalho. No fundo, procuramos que os espaços comuns do edifício de co-living não surjam apenas como uma necessidade funcional, mas antes como um complemento: uma extensão de cada unidade autossuficiente, que amplia a sua versatilidade através desses espaços partilhados.”
, Arqº João Franco

Figura 1 – Esquema de Layout, Unidade de Alojamento, Vista 1

Figura 2 – Esquema de Layout, Unidade de Alojamento, Vista 2

Figura 3 – Esquema de Layout, Zonas Comuns, Vista 1

Figura 4 – Esquema de Layout, Zonas Comuns, Vista 2
Perfil de utilizadores
O modelo de Co-Living em Sacavém enquadra-se em diferentes perfis de utilizadores, que refletem as atuais dinâmicas do mercado habitacional:
- Famílias jovens, maioritariamente compostas por até duas pessoas (casal), que procuram uma solução funcional e bem localizada enquanto não têm capacidade para adquirir habitação própria ou arrendar um imóvel com áreas superiores. (Nota: também os estudantes deslocados podem integrar este perfil, embora apresentem maior sensibilidade ao valor da renda.)
- Pessoas divorciadas, geralmente de meia-idade, que necessitam de um alojamento prático, com fácil acesso a serviços e proximidade a Lisboa.
- Empresas, que procuram alojamento para trabalhadores deslocados ou expatriados, garantindo contratos com “renda fixa e disponibilidade durante todo o ano”.
Cálculos Simplificados
1. Estimativa de Custos de Desenvolvimento (exclui aquisição de terreno e custos de financiamento)
1.1 Hard Costs, Construção: 4.653.033 €
1.2 Terreno, A definir
1.3 Soft Costs – 402.525 € (projetos; taxas urbanísticas / municipais; gestão e administração)
1.4 Custo de desenvolvimento por unidade de alojamento: 93.621,44 €

Figura 5 – Estimativa de Custos, Resumo
2. Renda Potencial Estimada
2.1. Renda bruta por unidade de alojamento: 800 € / mês
2.2. Renda bruta anual do edifício: 518.400 €
2.3. Custos operacionais anuais: 20% da renda anual = 103.680 €
Com base neste racional económico, e assumindo uma análise simplificada (sem contabilizar custos de terreno e financiamento):
- Yield Bruta do ativo (antes de impostos): 8,7%
Questão-chave: Face à estrutura financeira apresentada, a pergunta central é: qual o valor a atribuir ao terreno sem comprometer a viabilidade económica do projeto?
3. Conclusões
Do ponto de vista da procura, as zonas periféricas dos principais centros urbanos revelam uma atratividade significativa para o desenvolvimento de formatos habitacionais orientados para o arrendamento.
O custo, o tempo de desenvolvimento e o financiamento destes ativos continuam, contudo, a ser desafios a mitigar, de forma a reduzir o risco e maximizar a performance.
A simplificação dos processos de licenciamento e a adoção de sistemas de construção modular surgem como fortes aliados na criação de condições que viabilizem este tipo de alojamento habitacional. (Nota: Apesar da enorme relevância, não vale a pena voltar ao tema da fiscalidade)
A escala/dimensão é outro fator crítico, presente na checklist dos principais players, dada a sua influência direta nos custos de desenvolvimento e na eficiência operacional.
A grande questão é: haverá espaço para um produto intermédio, que não cumpra toda a checklist, mas que em localizações secundárias consiga desafiar os critérios atuais de investimento?
Pelo menos do ponto de vista do capital a alocar, estes seriam necessariamente investimentos mais curtos, com uma poupança significativa no custo do terreno. Dependendo do caso e da localização específica, o investimento necessário para desenvolver um ativo em zona prime poderá equivaler ao desenvolvimento de dois ativos em localizações secundárias “seguras”.
Créditos:
✒️ Artigo elaborado por: André Casaca · 📐 Estudo Arquitetónico – João Franco · 📊 Análise de Mercado – Pedro Almeida
Perguntas frequentes
Faz sentido desenvolver co-living em localizações secundárias?
A convicção do artigo é que sim, pelo menos do lado da procura, onde diz não restarem dúvidas. As zonas periféricas dos principais centros urbanos revelam atratividade significativa para formatos habitacionais orientados para o arrendamento. Os desafios que identifica são o custo, o tempo de desenvolvimento e o financiamento, e aponta a simplificação do licenciamento e a construção modular como aliados para viabilizar este tipo de alojamento.
Quais são os números do caso de estudo de Sacavém?
O projeto prevê 54 unidades de alojamento de cerca de 30 m² cada. Os custos de construção (hard costs) são estimados em 4.653.033 € e os soft costs, projetos, taxas urbanísticas e municipais, gestão e administração, em 402.525 €, o que dá um custo de desenvolvimento por unidade de 93.621,44 €, excluindo aquisição de terreno e custos de financiamento. A renda bruta estimada é de 800 €/mês por unidade, ou 518.400 € anuais, com custos operacionais de 20% da renda (103.680 €), resultando numa yield bruta de 8,7% antes de impostos.
Porque é que Sacavém foi escolhida para este estudo?
Pela centralidade no concelho de Loures e pela proximidade a Lisboa, com acessos rápidos pela A1 e A30, boa rede de transportes e comércio no centro urbano. A ligação ferroviária é determinante: Sacavém-Oriente em cerca de 5 minutos, Sacavém-Braço de Prata em cerca de 8 e Sacavém-Santa Apolónia em cerca de 14. Apesar de não ser zona prime, a localização estratégica e as perspetivas de melhoria de infraestruturas sustentam uma evolução consistente do mercado.
Que dados demográficos sustentam a procura em Loures?
Segundo os Censos 2021, o município de Loures tinha 201.590 habitantes, com média de 2,47 pessoas por família. 59,1% das famílias têm 1 a 2 pessoas, um perfil ajustado ao co-living; 61,1% das habitações são ocupadas por proprietários, abaixo da média nacional de 70%; e 31,3% das famílias estão em arrendamento, 10% acima da média nacional. Entre 2011 e 2021 Loures perdeu 1,7% da população, mas entre 2019 e 2023 a população estrangeira residente cresceu 64,2%. Segundo o SIR, a renda média contratada para um T1 de cerca de 43 m² situa-se nos 850 €/mês.
A quem se destina um projeto de co-living em zona secundária?
O artigo identifica três perfis: famílias jovens de até duas pessoas que procuram uma solução funcional e bem localizada enquanto não têm capacidade de comprar ou arrendar áreas maiores, notando que estudantes deslocados também encaixam, embora com maior sensibilidade ao preço; pessoas divorciadas, geralmente de meia-idade, que precisam de alojamento prático perto de Lisboa; e empresas que procuram alojamento para trabalhadores deslocados ou expatriados, com renda fixa e disponibilidade anual.
É possível viver bem em menos de 30 m²?
Segundo o arquiteto João Franco, citado no artigo, sim: reduzindo as áreas de circulação ao mínimo indispensável e com um estudo cuidado do mobiliário fixo, é possível integrar em menos de 30 m² zonas de descanso, lazer, refeições e trabalho. A intenção declarada é que os espaços comuns do edifício não sejam apenas uma necessidade funcional mas uma extensão de cada unidade autossuficiente, ampliando a sua versatilidade.
Porque é que não se constroem mais edifícios para arrendamento em Portugal?
O artigo aponta duas razões concretas: é mais rentável desenvolver para venda especulativa, e condicionantes urbanísticas como as áreas mínimas por tipologia e a exigência de estacionamento comprometem a viabilidade económica. A isto soma o contexto cultural, cerca de 70% da população procura adquirir casa, o que limita o desenvolvimento do mercado de arrendamento, ao mesmo tempo que não existem alternativas razoáveis à compra.
Um abraço e até breve
Laplace




