Porquê, Como, O Quê? - Laplace Real Estate Intelligence
01/02/2026 — Porquê, Como, O Quê?
No início deste ano comecei a ler um livro que me ofereci a mim próprio no último Natal e que, de forma inesperada, me tem feito pensar. “Primeiro Pergunte Porquê”, de Simon Sinek.
O título é simples. O impacto tem sido positivo.
No final de 2025 — um ano particularmente intenso e, positivo em termos de resultados — dei por mim num estado de indecisão pouco confortável. As perguntas surgiam sem pedir licença:
Como podemos crescer mais depressa?
Contratar mais pessoas ou apostar na equipa atual?
Que perfil de pessoas precisamos?
Devemos reduzir a prestação de serviços e apostar mais no investimento imobiliário?
Procurar parceiros estratégicos ou financeiros?
Como seria de esperar, não consegui responder a nenhuma delas. E foi precisamente aí que a leitura do livro começou a fazer sentido.
Quando estou cansado, tenho uma tendência quase automática para complicar. Para formular perguntas sofisticadas e complexas que, no fundo, apenas acrescentam ruído, incerteza e ansiedade. Neste caso, o livro funcionou quase como uma voz interior:
“André, não compliques. Primeiro explica o porquê.”
Porque é que acreditas numa determinada visão quando muitos te dizem que não faz sentido? Porque é que continuas quando o risco parece superior ao retorno? Porque é que insistes mesmo quando as coisas não correm como planeado? Porque é que não te focas apenas no aspeto financeiro do negócio?
Na minha cabeça existiam duas respostas possíveis.
A primeira é simples: estás a ser demasiado teimoso e acreditas excessivamente no longo prazo. A resiliência ajuda nos momentos de maior fragilidade, mas um dia pode falhar.
A segunda é mais difícil de explicar: tens um sonho e uma visão que te obrigam a uma descoberta guiada pela experiência. Estás disposto a testar, falhar e adaptar até acertar.
Acredito convictamente que o meu “porquê” está na segunda. E na confiança de que é possível atingir o objetivo, mesmo quando parece impossível.
O meu sonho no mercado imobiliário é ser Promotor Imobiliário, com capacidade para conceber e desenvolver um bairro — com usos mistos, equilibrado e funcional — capaz de gerar valor não apenas financeiro, mas também urbano, social e comunitário.
No fundo, parece-me que qualquer pessoa que aspire a ser um verdadeiro promotor imobiliário reconhece este objetivo. Não pelo volume do investimento ou pelo lucro potencial, mas pela complexidade, pela adversidade, pela aprendizagem e pelo impacto positivo que projetos desta natureza podem gerar.
É um sonho ambicioso e complexo. Talvez até utópico. Tão utópico que, por vezes, tenho vergonha de o partilhar.
Das poucas vezes que o fiz, os comentários foram claros:
“És maluco.”
“Deixa-te disso. O que interessa é faturar. O resto é conversa.”
Talvez não faça sentido. Talvez seja mesmo inalcançável.
Não me incomoda. Mantém-me focado na descoberta do caminho. Cada objetivo alcançado é um desbloqueio e, mesmo quando é pequeno face ao que ambiciono, por vezes sinto que corresponde à passagem de mais um “Cabo da Boa Esperança”.
Ainda assim, também sou prático. O romantismo da visão não paga as contas. E para conquistar grandes objetivos de longo prazo é necessário, antes de mais, sobreviver no curto prazo.
Foi precisamente esta premissa que me obrigou a pensar no “renascimento da Laplace”.
A reflexão foi simples: tens uma visão ambiciosa, resiliência e capacidade de execução. O que falta são pessoas que ambicionem fazer diferente e que, em conjunto, consigam descobrir o “caminho marítimo para a Índia”.
Todos sabemos que o sucesso da promoção imobiliária depende de conhecimento prático acumulado, de capital intensivo e, acima de tudo, dos colaboradores e parceiros certos.
Em 2024, quando decidi apostar verdadeiramente no modelo de negócio atual — depois de o adiar durante cinco anos por pensar que seria impossível — a decisão foi clara: se não tenho capital, nem capacidade de recorrer a capital alheio para participar diretamente em projetos de desenvolvimento imobiliário, então tenho de criar um conjunto de serviços que me permita gerar valor para terceiros, pagar as minhas contas e criar energia para continuar a jornada.
O cliente-tipo ficou rapidamente definido: proprietários ou representantes de ativos imobiliários com potencial de valorização, mas sem o know-how necessário para o concretizar.
Muitos destes proprietários acabam por optar pela alienação do património por desconhecimento, por acreditarem que não têm capital para desenvolver os ativos ou por receio — muitas vezes alimentado por histórias de falta de transparência no setor imobiliário. No entanto, em muitos casos a venda apenas “destrói capital”. Se conseguisse provar esta "tese", o modelo tinha "pernas para andar".
O primeiro desafio foi complexo: encontrar oportunidades para colocar a ideia em prática e, sobretudo, conquistar a confiança das pessoas.
A melhor forma de o fazer foi demonstrar, na prática, que os interesses do cliente estão acima de quaisquer honorários (a matemática simples ajudou muito nesta matéria).
A lógica foi simples: transparência total, não aceitar processos sem real potencial de valorização e cobrar sempre honorários inferiores à capacidade efetiva de gerar valor para o cliente.
Foi assim que comecei a desbloquear o caminho com uma convicção clara: para assumir o verdadeiro papel de Promotor Imobiliário não preciso de ser dono do ativo. Preciso apenas que o dono confie em mim. A partir daí, tudo se resume a trabalho, compromisso, consistência e resultados.
Comecei pelo desenvolvimento de relatórios de análise de ativos — guias estratégicos para a sua valorização. Um produto de baixo valor comercial, mas com enorme capacidade de gerar opções.
Essas opções abriram a porta a processos de maior complexidade, maior responsabilidade e, naturalmente, honorários mais ajustados ao valor criado. A consultoria não é um negócio de margens elevadas, mas permite previsibilidade de cash flow no curto prazo, cria condições para formar equipa e gera oportunidades futuras.
Foi assim que comecei a construir uma equipa — de forma orgânica, sem anúncios de contratação, baseada em princípios simples e numa visão “arriscada”.
O modelo é escalável? Não. É altamente personalizado. Cada caso é um caso. É lucrativo? Torna-se lucrativo pelas opções que gera e pelo valor acumulado da confiança dos clientes, que funciona muitas vezes como juro composto.
Não sendo escalável nem imediatamente lucrativo, porquê manter a aposta? Porque acredito que “prestar serviço a sério” é uma das grandes oportunidades do setor. E porque a consultoria nos permite participar em múltiplos projetos, assumir diferentes papéis e acelerar a aprendizagem.
Desde janeiro de 2024, temos vindo a construir, passo a passo, uma equipa e a desenvolver novos serviços em resposta às necessidades dos clientes. Foi nesse contexto que, em 2025, começámos também a participar em transações imobiliárias — um eixo mais imprevisível, mas também mais lucrativo.
Em 2026, damos o passo seguinte: investir e participar diretamente em projetos imobiliários, com envolvimento no capital e na gestão. Estamos a estruturar os modelos e esperamos apresentar os primeiros projetos no segundo semestre do ano.
Hoje, a Laplace organiza-se em três eixos simples: consultoria, transações e investimento.
Não temos todas as respostas. Não seguimos atalhos. Mas sabemos exatamente porque fazemos o que fazemos.
E, para já, isso chega.
Até breve,
André Casaca